Espiritismo, a razão face a face

Sem a luz da razão empobrece a fé, Allan Kardec

HERCULANO PIRES: o roustainguismo

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J.-Herculano-Pires3

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 “…O Cristo agênere é a ridicularização do Espiritismo, que se transforma num processo de deturpação mitológica do Cristianismo. A doutrina do futuro nega-se a si mesma e mergulha nas trevas mentais do passado. O homem-espírita, vanguardeiro e esclarecido, converte-se no homem da era ante-cristã, no crente simplório das velhas mitologias.”

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O texto abaixo publicado é o capítulo XIII, da Parte I de autoria de José Herculano Pires da obra:
“O Verbo e a Carne” – 2 Análises do Roustainguismo – Júlio Abreu Filho e José Herculano Pires / Edições Cairbar, São Paulo/Brasil 1ª edição 1973 que pode ser descarregada em ficheiro pdf, no link respectivo que se encontra ao fundo.

 
Quais os motivos da penetração da Roustainguismo no Brasil?

“…Como e porque ele conseguiu enraizar-se na chamada “casa mater”? Por que nos defrontamos agora com uma recrudescência dessa pseudo-doutrina? Parece-nos que tudo se resume numa questão de formação religiosa, tendo por fundo a formação racial brasileira e o período medieval do nosso desenvolvimento nacional.
O Roustainguismo chegou ao Brasil num momento crítico, quando a nossa cultura estava sendo abalada por várias infiltrações européias. Entre essas, o Espiritismo, que chegara da França e empolgara alguns espíritos cultos na segunda metade do século passado. O Roustainguismo se apresentava como integrado no Espiritismo e tocava de perto a sensibilidade mística de alguns ex-católicos.

A França era então o centro da Civilização e Paris o cérebro do mundo. A obra de Roustaing chegava amparada pelo prestígio da França e do Espiritismo. Trazia ainda a chancela de Roustaing, nome respeitado nos meios jurídicos de Bordeaux, e fora recebida mediunicamente por Madame Collignon, pertencente a prestigiosa família de juristas. Todo esse aparato impunha Roustaing à nossa inteligência.
Mais do que isso, porém, a obra trazia um grande alívio aos espíritos místicos, quebrava a frieza racional da obra de Kardec e restituía ao Cristo a sua condição sobrenatural.

Para homens profundamente religiosos como Bezerra Menezes, que fora exemplo de católico praticante, Antônio Luiz Sayão, Bittencourt Sampaio e outros, cujos atos atestam o predomínio do sentimento religioso face à razão crítica, a obra de Roustaing surgia como tábua de salvação, livrando-os do racionalismo kardeciano.
Roustaing era a volta ao maravilhoso, ao Cristo místico, divino no espírito e no corpo. Dessa maneira, Roustaing devolvia a essas criaturas as ilusões da religião lírica que as embalara desde a infância.

Não é fácil compreendermos hoje o clima religioso que o Espiritismo se desenvolveu entre nós. Houve, naturalmente, a dissidência racionalista, constituída por elementos que tendiam para o aspecto racional da doutrina. Daí a divisão, acentuada por Canuto de Abreu, entre os espíritas místicos e científicos. Divisão que foi perdendo o seu sentido na proporção em que a obra Kardec era melhor compreendida, revelando a sua essência religiosa e sobretudo a sua natureza de elo entre a Religião e a Ciência.

Como explicar-se a posição do Estado de São Paulo taticamente do Sul, rejeitando Roustaing desde o início? Figuras exponenciais como Batuíra e Cairbar Schutel revelaram desde o princípio acentuada tendência racional. Eram espíritos analíticos, amigos da era cartesiana, do espírito positivo, repelindo os exageros místicos. O desenvolvimento cultural de São Paulo contribuiu para a consolidação desse espírito em nosso meio doutrinário. Somente alguns espiritistas isolados deixaram-se levar pelo Roustainguismo, que jamais conseguiu predominar numa só instituição doutrinária. Pelo contrário, nos grupos e nas sociedades espíritas os poucos roustainguistas, mesmo quando se destacavam por seu prestígio pessoal, dissimulavam habilmente a sua posição, como o fazem ainda hoje, evitando atritos. A vocação pioneira de São Paulo, o impulso para o futuro que o caracterizou desde a sua formação parece ter influído nessa posição kardeciana.

O Roustainguismo, como já vimos, é um impulso de retrocesso, uma volta ao passado. E uma forma de saudosismo. Toda tendência retrógrada, em qualquer campo das atividades humanas, sempre encontrou repulsa no clima mental e cultural paulista. E quando falamos desse clima não nos fechamos nas fronteiras do Estado, pois que ele abrange todo o Sul do Brasil.
Referimo-nos acima ao nosso período medieval. São Paulo também passou por esse período, que podemos figurar na fase da Civilização Caipira. Assim, os elementos básicos de nossa formação racial também estão presentes em São Paulo: o religiosismo português, o animismo indígena, o feiticismo do negro, mas sobre eles dominou o nacionalismo utilitarista do bandeirante desbravador. Esse espírito de audácia, forjado com a matéria prima de Sagres, espantou dos ares do Planalto os fantasmas aborígenes e africanos e os resíduos do teologismo medieval.

Encontramos num livro de Luciano Costa, Kardec e não Roustaing, editado pela Gráfica Mundo Espírita do Rio de Janeiro, em 1943, a mesma afirmação que sustentamos, referente ao sentido retrógrado do Roustainguismo.
Não havíamos lido esse livro, que só agora nos chegou às mãos. Folheando-o, encontramos alguns trechos valiosos. Luciano Costa observa que o Routainguismo nos devolve aos tempos do Cristianismo Primitivo, quando o ensino do Cristo não era ainda compreendido, e acentua:

“Em Roustaing impera, absoluto, sobre todos os seus ensinos, o sentimento religioso da Antiguidade. – Em Os Quatro Evangelhos as verdades são sempre contrariadas pelas mentiras, o natural é prejudicado pelo absurdo e o belo é sempre desfigurado pelo horrível. Jesus é fluidificado, purificado e até endeusado; mas também é ironizado, ridicularizado, deturpado e estupidificado!”

Nos idos, de 40 estávamos ainda na mocidade, havíamos nos tornado espírita há poucos anos e não tivéramos tempo de aprofundar o conhecimento da Doutrina. A FEB fazia então grande propaganda da obra de Roustaing, afirmando que se tratava da única interpretação total dos Evangelhos publicada em toda a Cristandade.
Nessa época o Rev. Othoniel Motta publicou o seu livro Temas Espirituais, em que relata suas experiências espíritas positivas, reconhecendo a veracidade dos fenômenos, mas combatendo a doutrina como diabólica. Analisamo-lo, no ardor da juventude, num folheto intitulado “És Mestre…”, publicado na “Revista Internacional de Espiritismo, de Matão”, e feito em separata pela Editora “O Clarim”.
Levado pelas informações da FEB citamos de passagem “Os Quatro Evangelhos”. E um espírita da Bahia escreveu-nos a respeito, felicitando-nos pelo trabalho mas lamentando a citação infeliz. Fomos consultar a obra famosa e ficamos envergonhado. Graças a Deus Othoniel não recorreu a ela.
Caso semelhante aconteceu a Carlos Imbassahy, segundo ele nos relatou pessoalmente. Eurípedes Barsanulfo é também citado às vezes como “roustainguista” em virtude de engano produzido pela propaganda. Logo que acordou do engano, Barsanulfo repudiou Roustaing.
Chico Xavier tem sido vítima de mentirosos envolvimentos e sua obra chegou a sofrer deturpações, mas a verdade é que ele nunca apoiou Roustaing.
Outros companheiros – e entre eles nos parece que se encontra Bezerra de Menezes – acordam também em tempo mas não quiseram provocar escândalos no meio doutrinário e preferiram silenciar.

Esses fatos mostram como é insistente e nefasta a propaganda dessa obra de mistificação em nosso meio, mormente por uma instituição tradicional e conceituada. Neste volume, Júlio Abreu Filho faz denúncias graves de desvirtuamento de obras mediúnicas pelo fanatismo roustainguista. Essas denúncias não são de agora, mas publicadas há vários anos.
Apesar de tudo a propaganda continua e a obra deturpadora vai semeando o seu joio na seara. O silêncio estabelecido pelo “Pacto Áureo” deu resultados negativos, pois toda uma geração espírita se formou nesse período e agora está sendo colhida de surpresa pela “novidade” do Roustainguismo. Por esses frutos podemos avaliar a árvore. Qual o bom fruto que o roustainguismo produziu? Qual?

Por tudo isso – e pelas suas consequências desmoralizadoras – é necessário que os espíritas sinceros não se calem. É preciso dizer, alto e bom som, nas palestras e conferências, nos artigos e nos livros, a verdade sobre a obra de Roustaing. A análise que acabamos de fazer tinha a pretensão de ser apenas análise – e acabou nos levando obrigatoriamente ao terreno da acusação. Porque não é possível calar diante da astúcia dos mistificadores e da fascinação dos que a aceitam e aplaudem.

É dever dos espíritas sinceros combater a mistificação roustainguista neste alvorecer da Era Espírita no Brasil. Ou arrancamos o joio da seara ou seremos co­niventes na deturpação doutrinária que continua maliciosamente a ser feita.
O Cristo agênere é a ridicularização do Espiritismo, que se transforma num processo de deturpação mitológica do Cristianismo. A doutrina do futuro nega-se a si mesma e mergulha nas trevas mentais do passado. O homem-espírita, vanguardeiro e esclarecido, converte-se no homem da era ante-cristã, no crente simplório das velhas mitologias.

 

 O VERBO E A CARNE, 2 Análises do Roustainguismo, Júlio Abreu Filho e José Herculano Pires

VC

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One thought on “HERCULANO PIRES: o roustainguismo

  1. Gostaria de ser mais competente para comentar esses brilhantes ensinamentos, não o sou mas registrarei algo de minha insignificante experiência. Conheci o Espiritismo há pouco mais de 8 anos e, em meados desse período, comecei a estranhar algumas práticas, vez que concomitantemente passei a ler e estudar as obras do Mestre Kardec. Nunca tive o vezo do religiosismo, mas buscava entender o porquê de minhas atitudes e respostas a elas. Me intrigava essa fé transcendental, que inebriava os religiosos e isso não me satisfazia, mas acreditava e buscava um Deus que nos governava e que eu respeitava. Tive isso em minha educação paterna, mas que não aceitava totalmente, face o misticismo ali contido.
    O Espiritismo de Kardec calou profundamente em mim, pois deu-me as respostas que faltavam ao meu Espírito. Sou grato e fiel aos seus ensinamentos e não aceito tergiversações aos seus postulados.
    Obrigado por mais me esclarecerem. Obrigado por reforçarem as minhas convicções!
    José Oscar da Silva Lopes

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