Espiritismo, a razão face a face

Sem a luz da razão empobrece a fé, Allan Kardec

O Surgimento do “Anjo” Ismael

Notas prévias:

Conjuntamente com alguns dados fundamentais para a compreensão do espiritismo na sua versão brasileira oficializada pela ação da FEB e outras variantes sincréticas (largamente distanciadas da sua versão original e legítima tal como foi codificado por Allan Kardec e ilustrado pelos seus mais ilustres seguidores – muitos dos quais insignes brasileiros) segue este impressionante texto, de autoria do investigador Artur Felipe de A. Ferreira (ver nota autobiográfica ao fundo).
A chamada deste estudo para ser lido por espíritas portugueses, tem toda a razão de ser, dado que muitos deles estão distanciadíssimos do universo de factos aqui referenciados.
Tomo a liberdade de fazer algum tratamento do português do Brasil, mas apenas em casos específicos. A palavra rustenista, por exemplo, é de há muito usada no Brasil para designar os adeptos das ideias roustainguistas, ou seja, da autoria de Jean-Baptiste Roustaing. Julgo que em Portugal, dada a proximidade da França e da nossa familiaridade com a língua francesa, faz mais sentido chamar-lhes roustainguistas.


 

O Surgimento do “Anjo” Ismael


 
AFAF
 


Por Artur Felipe de A. Ferreira

 


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No dia 2 de agosto de 1873, um grupo de pioneiros fundou a “Sociedade de Estudos Espíríticos – Grupo Confúcio”, sob a direção de Antônio da Silva Neto e de Francisco Leite de Bittencourt Sampaio. Ismael deu ali sua primeira comunicação, proclamando-se diretor espiritual do Brasil.
Sob a determinação de Ismael, o grupo Confúcio se transforma na “Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade”.
Depois de muitas brigas e dissensões entre os membros do grupo, Bittencourt Sampaio, Sayão e Frederico Jr. resolvem afastar-se e formam um núcleo isolado, o “Grupo Espírita Fraternidade”. O espírito Ismael os acompanha e os instrui todo o tempo incentivando o estudo de “Os Quatro Evangelhos” de J-B. Roustaing, o que fez com que os grupos dessem prioridade ao aspecto religioso da Doutrina, que nada mais era que incorporar ao Espiritismo os conceitos “neodocetistas”.

A Confirmação de Luciano dos Anjos

Percebemos que o espírito Ismael passa a dirigir os trabalhos, tendo-se auto-proclamado “dirigente espiritual do Brasil”.
Tal postura de Ismael é confirmada pelo maior representante do roustainguismo no Brasil, o Sr. Luciano dos Anjos, que é concordante com as obras da época no que concerne ao estímulo dado por Ismael ao estudo metódico da obra “Os Quatro Evangelhos”, de J.B. Roustaing:

“Os trabalhos de desobsessão foram entregues a um grupo excelente, que auferiu resultados maravilhosos. Passou-se imediatamente ao estudo metódico da obra “Revelação da Revelação”, de Jean-Baptiste Roustaing, em cumprimento ao desejo de Ismael.” (pag. 127 – “O Atalho”, de Luciano dos Anjos)

O espírito Ismael interferia na escolha dos dirigentes do “Grupo Confúcio” e das instituições espíritas que o sucederam. Nas obras “Grandes Espíritas do Brasil” e “Trabalhos do Grupo Ismael”, encontramos várias passagens em que isso fica evidente.

“Ao segundo (Dr. Geminiano Brasil) tocou ascender, naturalmente por indicação dos Guias espirituais da oficina do Anjo glorioso, ao posto que ocupara o velho trabalhador (Sayão) que havia concluído a sua tarefa, exemplarmente desempenhada. Houve ele, porém, de repartir com o primeiro, José Ramos, o encargo que lhe fora deferido, ficando com o de explicador do Evangelho e o outro com o de doutrinador.”

Ismael passou décadas ditando a conduta e direcionamento dos trabalhos dos núcleos que, no futuro, teriam seus membros como fundadores da Federação Espírita Brasileira, tais como Sayão, Bittencourt Sampaio, entre outros expoentes do roustainguismo. Este último tendo, inclusive, escrito uma obra que comentava “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing, chamada “Elucidações Evangélicas”.
Já de volta à vida espiritual, foi autor de dois grandes clássicos da literatura espírita: “Jesus Perante a Cristandade” e “Do Calvário ao Apocalipse”, esta última o complemento para a obra “Os Quatro Evangelhos”, de João-Baptista Roustaing.

Passados alguns anos, Ismael volta a influenciar os rumos do movimento, quando presta “ajuda” ao então secretário da FEESP, Edgard Armond:

“Em 1941 (Armond) recebe espontaneamente mensagem de Ismael convocando-o a trabalhar pela difusão do Espiritismo em seu aspecto religioso. O plano espiritual, assegurou-lhe Ismael, daria toda a cobertura à federação para implantar programas que atendessem às massas, esclarecendo-as e motivando-as pelo esforço de evangelização.
“Armond aceitou a incumbência e partiu para a organização dos trabalhos. Inicialmente formou um Conselho de espíritas que pudesse com ele partilhar o trabalho. Para formar esse Conselho, Armond anotava, em folhas de papel, nomes de pessoas ilustres que ele achava reunir condições para a tarefa. Colocava esses papéis na gaveta de sua mesa na FEESP e, no dia seguinte, encontrava assinalados com uma cruz – feita pelo plano espiritual – os nomes que eram considerados mais capacitados para ajudá-lo a desenvolver o programa.”  (“Simpósio Nacional do Pensamento Espírita”, Valentim Lorenzetti)

Resultado do trabalho: um programa de estudos que mesclava Kardec, Roustaing, Ubaldi e doutrinas orientais.

O que mais salta aos olhos é a ingerência do “anjo” Ismael em todos os trabalhos dos centros e depois da FEB e da FEESP de Armond, inclusive incentivando o estudo de “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing.
Aí nós nos perguntamos: como Kardec veria essa atitude?
Qual foi a opinião de Kardec em relação aos grupos que se deixam guiar pelos espíritos, ao ponto de submeter aos espíritos a escolha de seus dirigentes e colaboradores?

Vejamos, então, a posição de Kardec sobre isso:

“Propuseram que a designação dos candidatos fosse feita pelos Espíritos em cada grupo ou sociedade espírita. Além de esse modo de proceder não prevenir todos os inconvenientes, haveria alguns inconvenientes especiais que a experiência já tem demonstrado e que seria supérfluo lembrar aqui. Convém não esquecer que a missão dos Espíritos é instruir-nos, melhorar-nos, mas não tomar o lugar do nosso livre-arbítrio…
Além disso, esse meio suscitaria mais embaraços do que se pensa, pela dificuldade de fazer todos os grupos participarem da eleição. Traria complicações no mecanismo que, quanto mais simplificado, menos suscetível é de desorganizar-se.” (Obras Póstumas, “O Chefe do Espiritismo”)

Mas alguns poderiam objetar: “puxa, mas qual é o problema de se estudar e divulgar “Os Quatro Evangelhos” de J-B. Roustaing? Será que lá não encontramos ensinamentos bons? Não fala em Jesus, em Evangelho? Afinal, esse livro teria sido escrito pelos evangelistas e por Moisés, segundo o próprio Roustaing!

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Mas, antes, vejamos algumas das (graves, consideramos) discordâncias entre o Espiritismo e o Roustainguismo:

1 – No Roustainguismo, a encarnação se dá por castigo – Os Anjos Decaídos

“Atingindo o ponto de preparação para entrarem no reino humano, os Espíritos se preparam, de fato, em mundos ad-hoc, para a vida espiritual consciente, independente e livre. É nesse momento que entram naquele estado de inocência e ignorância. (…)
“Chegado deste modo à condição de espírito formado, de espírito pronto para ser humanizado se vier a falir, o Espírito se encontra num estado de inocência completa, tendo abandonado, com os seus últimos invólucros animais, os instintos oriundos das exigências da animalidade”. (1º volume da obra de Roustaing, 5ª ed., pág. 295).

Para Roustaing, portanto, a encarnação humana não é uma necessidade; o Espírito só será humanizado se vier a falir, isto é, a encarnação humana se dá por castigo.

“Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa”.
“O Espírito não é humanizado, também já o explicamos, antes que a primeira falta o tenha sujeitado à encarnação humana. Só então ele é preparado, como igualmente já o mostramos, para sofrer as consequências”. (1º volume da obra de Roustaing, 5ª ed., pág. 317)

Comparem com o que ensina a Doutrina Espírita:

Pergunta nº 132 de “O Livro dos Espíritos” (LE) de Allan Kardec: “Qual é a finalidade da encarnação dos Espíritos?”

R.: Deus a impõe com o fim de levá-los à perfeição: para uns, é uma expiação; para outros, uma missão. Mas, para chegar a essa perfeição, eles devem sofrer todas as vicissitudes da existência corpórea; nisto é que está a expiação. A encarnação tem ainda outra finalidade, que é a de pôr o espírito em condições de enfrentar a sua parte na obra da criação. É para executá-la que ele toma um aparelho em cada mundo, em harmonia com a sua matéria essencial, a fim de nele cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. E, dessa maneira, concorrendo para a obra geral, também progride.”

Pergunta nº 133: “Os Espíritos que, desde o princípio, seguiram o caminho do bem, têm necessidade da encarnação?”.

R.: Todos são criados simples e ignorantes e se instruem através das lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a alguns, sem penas e sem trabalhos e, por conseguinte, sem mérito”.

Mais um ponto de discordância:
O Espiritismo rejeita peremptoriamente a metempsicose, enquanto Roustaing (e os espíritos que se comunicaram) a defende, especialmente no caso de o espírito descrer da existência de Deus.

2 – Espíritos “falidos” encarnariam como lesmas

“Queda pelo ateísmo, levando à encarnação primitiva”

“Até o ateísmo – por mais impossível que pareça – até o ateísmo não raro se manifesta naqueles pobres cegos colocados no centro mesmo da luz. E nunca, como aí, o ateísmo nasce tão diretamente do orgulho. Não vendo aquele de quem tudo emana, negam-lhe a existência e se consideram a base e a cúpula do edifício. Nesse caso, sobretudo nesse caso, mais severo é o castigo. É um dos casos de primitiva encarnação humana. Preciso se torna que os culpados sintam, no seu interesse, o peso da mão cuja existência não quiseram reconhecer.”  (1º volume da obra de Roustaing, pág. 311)

Esses ateus sofrem o castigo da “primitiva encarnação humana” transformando-se em lesmas, a que Roustaing dá o nome de “criptógamos carnudos”:

“São corpos rudimentares. O homem aporta a essas terras no estado de esboço, como tudo que se forma nas terras primitivas. O macho e a fêmea não são nem desenvolvidos, nem fortes, nem inteligentes”.
“Mal se arrastando nos seus grosseiros invólucros, vivem, como os animais, do que encontram no solo e lhes convenha. As árvores e o terreno produzem abundantemente para a nutrição de cada espécie. Os animais carnívoros não os caçam. (…) “O Espírito vai habitar corpos formados de substâncias contidas nas matérias constitutivas do planeta. Esses corpos não são aparelhados como os vossos, porém os elementos que os compõem se acham dispostos por maneira que o Espírito os possa usar e aperfeiçoar. Não poderíamos compará-los melhor do que a criptógamos carnudos.”

Heresia científica:
“Criptógamo carnudo” jamais poderia ser utilizado para designar um animal, uma vez que a palavra “criptógamo” serve para designar certas plantas cujos órgãos reprodutores não aparecem, são ocultos.

Herculano Pires comenta:

“Essa é a revelação da revelação. Roustaing copia e desfigura Kardec acrescentando aos seus ensinos os maiores absurdos. Note-se que essas criaturas estranhas, em forma de larvas e lesmas, são encarnações de espíritos humanos que haviam atingido alta evolução sem passar pela encarnação humana. Depois de desenvolverem a razão em alto grau e de haverem colaborado com Deus nos processos da Criação, chegando mesmo a orientar criaturas humanas, voltam à condição de criptógamos carnudos (…)”

Em resumo, a tese roustainguista está em conflito com um princípio basilar da Doutrina Espírita, o da não-retrogradação do Espírito, e defende a metempsicose. É claro que o grupo que estudava Roustaing foi alvo de toda sorte de crítica face aos absurdos detectados por vários espíritas que estudavam e defendiam a Codificação.
Ismael e seus simpatizantes reagiram e se disseram incompreendidos e perseguidos pelos “espíritos das trevas” (termo corrente entre os roustainguistas).

Proclamando-se representantes do Cristo na Terra, declararam:

“São as escutas da Treva. Por trás delas comandam os maiorais. A cada um que aqui aporta corresponde um novo acesso de fúria daqueles que vêem inutilizados os seus propósitos, pelos soldados do Cristo de Deus, sob o comando de Ismael.” (“Trabalhos do Grupo Ismael”)
“Peçamos ao divino Pastor que defenda a Casa de Ismael, que lhe coloque às portas as sentinelas do seu amor, a fim de que a treva não assalte de surpresa, derrubando os pobres calcetas, que na carne procuram servi-la.”

Percebam que os roustainguistas fazem o papel de vítimas, enquanto posicionam seus adversários ideológicos como “agentes da trevas” e obsidiados.

“Pensa (Vinícius) que ao demônio da cizânia, esforçada e continuamente aplicado à obra nefasta da discórdia, da separatividade, da divisão, se devem imputar as hostilidades de que é alvo a Federação. Só a esse demônio se pode atribuir que alguns irmãos que militam nas nossas fileiras sejam levados a ver grandes disparidades entre a obra do Mestre e a de Roustaing e a combater esta última, que para todo aquele que aprecia, de ânimo desprevenido e sem idéias preconcebidas, se apresenta como complementar da outra, pelo zelo extremo que a primeira lhe inspira.”

J.B. Roustaing foi contemporâneo de Kardec e residia na cidade de Bordéus (ou Bordeaux). Militou no movimento espírita nascente daquela cidade.
Kardec chegou a visitar Bordéus, sendo recebido festivamente por todos. Roustaing não compareceu para receber Kardec, possivelmente irritado com a indiferença com que Kardec se reportou à sua obra.

Foi então durante a permanência de Kardec junto aos espíritas bordelenses que Erasto fez a seguinte advertência, como jamais havia feito antes e jamais haveria de fazer depois, coincidentemente na mesma cidade em que surgia “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing:

(…) Se não tivésseis dado o exemplo de uma fraternidade sólida; se, enfim, não fosseis um centro sério e importante da grande comunhão Espírita francesa, eu teria deixado esta questão na sombra. Mas, se a levanto, é que tenho plausíveis razões para vos convidar a manter, entre os vossos diversos grupos, a paz e a unidade de Doutrina (…)
Não ignoro, e não deveis ignorar não mais, que se empregará de tudo para semear a divisão entre vós; que se procurará armar-vos emboscadas; que se semeará, sobre o vosso caminho, armadilhas de toda sorte; que vos oporão uns aos outros, a fim de fomentar uma divisão e levar a uma ruptura sob todos os aspectos lamentáveis; mas sabereis evitar isso, praticando primeiro diante de vós mesmos, e em seguida diante de todos, os sublimes preceitos da lei de amor e caridade. (…)
“Vossos excelentes guias já vos disseram: tereis de lutar não só contra os orgulhosos, os egoístas, os materialistas e todos esses infortunados que estão imbuídos do espírito do século; mas ainda, e sobretudo, contra a turba de Espíritos enganadores (…) que virão logo vos atacar : uns com dissertações previamente combinadas onde, à custa de algumas piedosas tiradas, insinuarão a heresia ou algum princípio dissolvente; os outros com comunicações abertamente hostis aos ensinamentos dados pelos verdadeiros missionários do Espírito de Verdade. Ah! Crede-me, não temais nunca então em desmascarar os patifes que, novos Tartufos, se introduzirão entre vós sob a máscara da religião; sede igualmente sem piedade para com os lobos devoradores que se escondem sob peles de ovelhas. (…)

A mensagem acima de Erasto merece toda nossa atenção. Leiam não só uma vez, mais quantas forem necessárias, e perceberão facilmente a firmeza que Erasto sugere que se tenha para lidar com essa classe de espíritos. E notem e meditem sobre a seguinte frase:

“Crede-me, não temais nunca então em desmascarar os patifes que, novos Tartufos, se introduzirão entre vós sob a máscara da religião; sede igualmente sem piedade para com os lobos devoradores que se escondem sob peles de ovelhas. (…)
“Devi vos falar como o fiz, porque me dirijo a pessoas que ouvem a razão, a homens que perseguem seriamente um objetivo eminentemente útil; a melhoria e a emancipação da raça humana; (…)
Devi vos falar assim, porque era preciso vos premunir contra um perigo, vo-lo assinalando: era meu dever; vim cumpri-lo.”

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A FEB, quando relata essas histórias, nunca deixa claro do porquê de tantos conflitos. Mas, nos aprofundando melhor, vemos claramente que o motivo da cizânia foi um só: a adoção, por parte de um grupo, da obra de Roustaing.

Isso dividiu o movimento entre místicos e científicos.

•    Os místicos, que defendiam a predominância do aspecto religioso com a adoção de “Os Quatro Evangelhos”,
•    e os científicos, defendendo tão-somente o estudo da Codificação e o tríplice aspecto – ciência, filosofia e moral.

O interessante é que, quando os místicos fundavam grupos, esses logo também se dissolviam – duravam no máximo dois anos – devido a desentendimentos.
Eu me pergunto como um grupo que defendia tanto esse lado “religioso” se envolvia com tanta frequência em problemas dessa monta, ao ponto de colecionarem inimizades e adversários…

Para que todos aqui tenham uma confirmação do que aqui foi dito sobre os embates entre místicos (em sua maioria adeptos de Roustaing) e os científicos (que rejeitavam o Roustainguismo), transcreveremos palavras do historiador espírita Canuto Abreu, em que ele relata a predominância dos roustainguistas, guiados pelo “anjo” Ismael:

“(…) Esses prepostos (espíritos), chefiados por Ismael, sustentavam que o Brasil era a terra eleita do Evangelho e, portanto, nenhum Espiritismo poderia dar frutos se não tivesse como base a Palavra Eterna.
Muitos aceitaram essa revelação. Outros a recusaram, considerando-a sectária e oposta à finalidade universalista da doutrina espírita.
Os que a aceitaram, apegaram-se ao estudo dos Evangelhos. E como o “Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Kardec, era um comentário, não aos evangelhos, mas aos princípios basilares da doutrina de Jesus mais conformes aos ensinos dos Espíritos, e não era, além disso, um comentário feito pelos espíritos e sim uma aplicação devida ao gênio do autor, buscaram uma obra mais vasta e mais espirítica.” (…)
Sabem o que fica claro nesse trecho?
Que a idéia de ser o Brasil a pátria do Evangelho é anterior ao livro “Brasil – Coração do Mundo…”, psicografado por F.C. Xavier, e já era então defendida pelo grupo roustainguista. Essa “revelação” teria sido passada pelo “anjo” Ismael àquele grupo. Isso nos ajuda a entender do porquê da obra “Brasil – Coração do Mundo…” ser tão cara à FEB e aos roustainguistas.
Lembrando-vos que os originais do livro foram destruídos, e que o médium Chico Xavier chegou a se sentir um pouco mal com o ocorrido, já que há, no livro, a afirmativa de que Roustaing teria sido coadjutor de Kardec, o que causou muita polêmica entre os espíritas brasileiros.
Chico pediu os originais do livro, mas foi informado que os mesmos haviam sido inutilizados.
Muito estranho, não acham?

Continua o dr. Canuto Abreu:

“O livro de Roustaing chegara ao Brasil muito cedo, quase ao mesmo tempo que os livros de Kardec. Os espíritas evangélicos mais cultos, à frente dos quais se achava o mais erudito de todos – Bittencourt Sampaio – tomaram “Os Quatro Evangelhos” como vade mécum e o levaram à altura de última palavra sobre a doutrina de Jesus.
O livro de Roustaing apresentava o mesmo valor doutrinário de “O Livro dos Espíritos”, isto é, ambos atribuíam o que estava escrito a uma revelação ditada.
Mas tinha sobre a obra de Kardec uma vantagem para o crente: todas as explicações eram dadas como advindas dos próprios evangelistas, assistidos pelos apóstolos e estes, a seu turno, assistidos por Moisés.
Os crentes dispensam em regra as provas. Contentam-se com a presunção de boa-fé. O roustainguismo pôde, assim, graças à tolerância dos Espíritos evangélicos, ganhar adeptos entre os místicos”.
“Se jamais os prepostos e muitos menos seu Chefe afirmaram que na obra de Roustaing estava o verdadeiro sentido da vida e doutrina de Jesus, também jamais fizeram uma assertiva em contrário. Mesmo porque, se tal fizessem, perderiam o tempo e simpatia do fanático, e apagariam uma fé bruxoleante, que cumpre alimentar cuidadosamente.

A obra de Roustaing concorreu, entretanto, para dividir os crentes e criar dificuldades invencíveis à desejada harmonia de vistas: os Espíritas cristãos passaram a formar dois grupos distintos: os kardecistas e os roustainguistas.
“Os primeiros (kardecistas) tinham Deus como único Senhor, causa primeira de todas as coisas, e recebiam Jesus como irmão, a quem denominavam Espírito Verdade.
Não davam ao Cristo quaisquer característicos de deidade, não consideravam, absolutamente, como os roustainguistas, “a maior essência espiritual depois de Deus”.
Os outros, porém, consideravam Jesus o Senhor, igualando-o a Deus.
Distinguiam o Pai e o Filho, mas lhes atribuíam uma única deidade, ainda que rejeitando a consubstanciação dos teólogos. Veneravam, além disso, uma Senhora, a cuja intercessão apelavam de preferência. Além dessa divergência capital alimentavam outras, entre as quais avulta a que discutia a natureza da carne de Jesus.
Os kardecistas negavam e os roustainguistas aceitavam a hipótese dos docetas.”

Origem das idéias roustainguistas:

Dentre às várias seitas que surgiram ou foram popularizadas na época, a que deu maior dor de cabeça à Igreja, foi sem dúvida nenhuma, o docetismo, que afirmava que Jesus não teve corpo verdadeiro, mas que descera do céu em corpo aparente, passando pelo seio da Virgem Maria como a água por um canal, sem que dela tivesse recebido a mínima partícula.
Com essas ideias foi combatida e condenada pelos partidários do dogma da Encarnação e da Presença Real.
Os docetistas (hoje roustanguistas), julgavam por demais realista, senão chocante, a noção de Encarnação e propunham uma interpretação do problema da salvação pela qual o elemento carnal não viesse a comprometer o espiritual.
O docetismo foi combatido por Santo Ireneu, Tertuliano e Santo Agostinho, sendo definitivamente condenado pelo concílio da Calcedônia (451). Seus vestígios são encontrados em escritos de autores cristãos até o séc. VI.
Kardec em “A Gênese”, comentando sobre o “desaparecimento do corpo de Jesus”, no item 65, deixa bem claro:
“Após o suplício de Jesus, seu corpo se conservou inerte e sem vida; foi sepultado como o são de ordinário os corpos e todos puderam ver e tocar. Após a sua ressurreição, quando quis deixar a Terra, não morreu de novo, seu corpo se elevou, desvaneceu e desapareceu, sem deixar qualquer vestígio, prova evidente de que aquele corpo era de natureza diversa do que pereceu na cruz; donde forçoso é concluir que, se foi possível que Jesus morresse, é que CARNAL era o seu CORPO.”

E agora José?

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Kardec não caiu na falácia roustainguista e prudentemente adverte os espíritas, para que tomem cuidado com os plágios de idéias antigas, no número 67 do Capítulo XV de “A Génese”:

“Não é nova essa idéia sobre a natureza do corpo de Jesus.
No quarto século, Apolinário, de Laodicéia, chefe da seita dos apolinaristas, pretendia que Jesus não tomara um corpo como o nosso, mas um corpo impassível, que descera do céu ao seio da santa virgem e que não nascera dela; que, assim, Jesus não nascera, não sofrera e não morrera, senão em aparência.
Os apolinaristas foram anatematizados no concílio de Alexandria, em 360; no de Roma, em 374; e no de Constantinopla, em 381.
Tinham a mesma crença os Docetas (do grego dokein, aparecer), seita numerosa dos Gnósticos, que subsistiu durante os três primeiros séculos.”

Tentando desviar a atenção do leitor, eis que aparece uma nota da editora febeana, com a dialética maquiavélica de sempre:

“Não somente foram anatematizados os apolinaristas, mas também os reencarnacionistas e os que se põem em comunicação com os mortos.”

Ora bolas! a reencarnação e a comunicação com os mortos são realidades comprovadas pela Ciência Espírita, por isso são princípios básicos da doutrina. Quanto ao apolinarismo é bem diferente, porque não passa de uma idéia absurda.

Kardec coloca os apolinaristas em pé de igualdade com os docetistas e é claro que os febeanos não gostaram, pois os roustainguistas são filhotes dos apolinaristas e dos docetistas.

“Ora, como a Federação ia ficar nas mãos dos adeptos do roustainguismo, compreenderam os kardecistas e os espiritistas puros que teriam, mais cedo ou mais tarde, de se retirar e lutar contra ela por causa da desinteligência de princípios. A plataforma foi, por essa razão, recebida como um sinal de guerra. Com a promessa de formar um novo Espiritismo baseado no Evangelho, o que naturalmente os místicos iriam impor com o tempo pela propaganda sistemática e regulamentada seria, nem mais nem menos, o roustainguismo”.

 


 

 

Vamos analisar o que o Kardec-espírito da FEB teria ditado em sua mensagem através do médium roustainguista Frederico Júnior e espertamente publicada no livreto “A Prece”, como para referendar a “missão” do anjo Ismael, a da FEB como “casa-máter”, a do Brasil como “coração do mundo, pátria do Evangelho” e do roustainguismo.

Analisai vós mesmos:

“Sendo assim, a esse pedaço de terra, a que chamais Brasil, foi dada também a Revelação da Revelação…”, pág. 13 (Revelação da Revelação é sub-título de “os Quatro Evangelhos”).

“Ismael, o vosso guia, tomando a responsabilidade de vos conduzir ao grande templo do amor e da fraternidade humana, levantou a sua bandeira, tendo inscrito nela – Deus, Cristo e Caridade. Forte pela dedicação, animado pela misericórdia de Deus, que nunca falta aos trabalhadores, sua voz santa e evangélica ecoou em todos os corações, procurando atraí-los para um único agrupamento onde, unidos…, onde enlaçados num único sentimento – o do amor – pudessem adorar o Pai em Espírito e Verdade…”

A expressão “em espírito e verdade” é exaustivamente repetida nos livros de Roustaing, e na mensagem a puseram na boca de Kardec…

Mais referências do Kardec-espírito da FEB enaltecendo o anjo Ismael:

“… todos os espíritas tinham o dever sagrado de vir aqui se agruparem – ouvir a palavra sagrada do bom Guia Ismael – único que dirige a propaganda da Doutrina nesta parte do planeta e único que tem a responsabilidade de sua marcha e desenvolvimento.” (págs. 14/15)

O pseudo-Kardec da FEB renuncia á sua condição de Codificador do Espiritismo ao declarar que a Doutrina Espírita está contida nos “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing:
– A Revelação da Revelação:”   … tudo converge para a Doutrina Espírita – Revelação da Revelação”. (pág. 16)

O “templo” de Ismael é exaltado: “Disciplinai-vos pelos bons costumes no Templo de Ismael…” (pág. 19)

Como se vê, num centro doutrinariamente roustainguista, a mensagem atribuída a Kardec não poderia ser de outra forma.
Os espíritos, adeptos do Docetismo (que pregava o corpo aparente de Jesus), ressuscitado por Roustaing, a cuja falange pertence Ismael, forjaram um Kardec para atestar a suposta missão do “anjo” Ismael e a importância da “Revelação da Revelação”.
Um Kardec irreconhecível, que sai em defesa desesperada de Ismael e diz:
“Assim, quando os inimigos da Luz – quando o espírito da trevas julgava esfacelada a bandeira de Ismael, símbolo da Trindade Divina…” (pág. 14)

Vemos dois erros graves:

a expressão “espírito das trevas”, que Kardec jamais usou, por ser errada e inadequada (ver pergunta 361-A de “O Livro dos Espíritos”), e a defesa da trindade divina, inaceitável para o Espiritismo.

O Kardec da FEB é místico

Vejam só:

“Se fora possível, a todos os que estremecem diante desses quadros horrorosos, praticar o jejum de que falava Jesus aos seus apóstolos; se fora possível a cada um compreender o papel do verdadeiro sacerdote, de que se acha incumbido, quando procura repartir a hóstia sagrada, no altar de Jesus, com seus irmãos na Terra.” (p.250)

O pseudo-Kardec da FEB enaltece a caridade sem discernimento:
“A caridade que exclui a razão, a prudência e o bom-senso – a verdadeira caridade – é instintiva!” (p.29)

E se contradiz mais adiante:
“Assim pois, o bem deve ser feito indistintamente, seja qual for o terreno em que houvermos de praticar. Mas, nem o próprio bem pode excluir a nossa razão, quando, tratando-se da justiça de Deus, pretendemos contrariá-la.” (p.36)
No livro “Brasil – Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, de Humberto de Campos, médium Chico Xavier, ed. FEB, se lê que Allan Kardec

“contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares, da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de J-Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de León Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a estrada científica e de camille Flamarion, que abriria a cortina dos mundos…”

A inclusão de Roustaing nessa “plêiade de auxiliares” de Kardec causou surpresa e decepção aos espíritas estudiosos e conhecedores do Espiritismo, que manifestaram de público seus protestos.

Humberto de Campos cita Kardec de passagem, como pessoa distante no tempo, num retrato emoldurado, empalidecido, empoeirado, suspenso na parede, e de quem se tem apenas uma lembrança saudosista.
Sem conhecer, na Terra, Allan Kardec, que equivale a dizer, o Espiritismo, foi temeridade de Humberto de Campos (se é que foi ele mesmo o autor), então desencarnado há apenas quatro anos, escrever sobre a implantação do “Espiritismo” no Brasil, dando-lhe total feição roustainguista febeana, consequência do seu envolvimento, no plano espiritual, como a seguir demonstraremos, por seu mestre Pedro Richard-espírito, febeano e roustainguista, e pelas lições que Humberto de Campos-espírito presenciou nas reuniões nas reuniões do “Grupo Ismael” da FEB, onde se estudam com exclusividade “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing.

Numa mensagem sua no “Grupo Ismael”, em 06/03/1940, Humberto de Campos manifesta seu agradecimento a Pedro Richard-espírito, a quem chama de “mestre”:
“Agradeço ao mestre, Pedro Richard, a sua caridade para comigo, a sua assistência, o seu esforço prodigioso e imenso cabedal evangélico com que me tem beneficiado.” (Fonte: “Trabalhos do Grupo Ismael, ed. FEB, 1941, pág. 130)

Além das aulas ministradas pelo seu mestre Pedro Richard (espírito), Humberto-espírito também se instruiu nas reuniões do “Grupo Ismael”, que se realizavam às quartas-feiras, na FEB, com o que ele se transformou em mais um discípulo de Ismael:

“Se é verdade que as reuniões das quintas-feiras, na Academia Brasileira de Letras, eram o último encanto intelectual dos derradeiros dias de minha vida, agora a minha nova alegria verifica-se às quartas, quando de nossas assembléias deliciosas e amigas, no Templo de Ismael
(“Novas Mensagens”, médium Chico Xavier, ed. FEB, 1978, pág.51)

Nos primórdios de 1900, nas páginas de “Reformador”, de 01/07/1904, na função de administrador dessa revista na FEB, Richard já criava polêmica com os espíritas por ele divulgar a doutrina roustainguista.
Através da revista, debateu com outros dois jornais espíritas, um deles chamado “O Espírita Alagoano”, com o qual discutiu acerca da personalidade de Jesus, sustentando ter sido Jesus um agênere e Maria a virgem imaculada.

Pedro Richard permaneceu na FEB até o seu desencarne, em 23/10/1918, aos 65 anos de idade, estando na direção do “Grupo Ismael”. Na gestão de Aristides Spínola, em 1917, participou de uma comissão encarrregada de fazer com que retornasse ao Estatuto da FEB o estudo  obrigatório das obras de roustainguistas, que vale até hoje.

Pedro Richard-espírito desmerece o trabalho dos centros espíritas não ligados à FEB:

“Digo-vos, meus caros companheiros, não com autoridade, mas com o testemunho da minha visão como espírito, que pouco se aproveita do que por aí vai em matéria de arregimentação espírita. Há um grande número de núcleos e agremiações, é verdade, mas sem direção, nem organização baseada na fraternidade e na disciplina, peculiar aos que compreendem a verdadeira finalidade da doutrina e do homem. Todo um trabalho está por fazer-se, a fim de se aproveitarem tantos esforços despendidos, de modo a se congregarem todos sob a bandeira de Ismael.

E deixa clara a sua convicção roustainguista:

“A doutrina diz que o Espírito aprende no infinito, de acordo com sua mentalidade e com a necessidade do seu progresso; que, frequentemente, enriquecido o seu cabedal, ele se julga capaz de alguma coisa fazer por si mesmo. É o orgulho que nasce e ao qual se seguem a falência e o castigo da encarnação. Creio bastante clara á vossa compreensão o que a lição de hoje ensina, porque, considerando-se que a encarnação é sofrimento, não parece justo que o Espírito fosse a ela condenado sem culpa”.

A doutrina a que se refere Richard não é a espírita e sim a de Roustaing, segundo a qual a encarnação humana se dá por castigo.

E aí vem o ataque, cheio de sofisma, com a usual tática de fazer a FEB e seus diretores vítimas da intolerância dos “kardecistas”:

“Há quem ataque a Casa de Ismael, pela sua orientação cristã em Jesus Cristo. Mas, que será o Espiritismo sem o Evangelho? Simples intercâmbio de vivos e mortos? Apenas o fenômeno da mesa falante ou das materializações e outros, sem que deles se tirem ilações que aproveitem á educação moral do homem? Direi então que aí é que está a fantasmagoria, a palhaçada”. (pág. 193)

Linguagem sofística a de Richard, porque o espírita reconhece a moral cristã para nortear-lhe os passos. E o que se contestava na FEB (aliás, até hoje) é o seu pseudo-Espiritismo-cristão, inspirado na ideologia roustainguista, divergente de Kardec (leia-se “Codificação/Espíritos Superiores).

À sua pergunta: “Que será o Espiritismo sem o Evangelho?”, nós responderíamos: O Espiritismo possui um código de moral, que são as “Leis Morais” contidas em “O Livro dos Espíritos”, que dão ao Espiritismo identidade própria. A moral cristã, diga-se, é a moral universal, está toda ela embasando os ensinamentos dos Espíritos veiculados nos livros de Allan Kardec.

Bem, diante desses fatos, conclui-se que Humberto de Campos, recebendo cultura evangélica de Pedro Richard, seu mestre roustainguista na terra e no além, e ainda nas reuniões do “Grupo Ismael”, na sede da FEB, onde se estudam com exclusividade “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing, não teve outra alternativa senão a que seu livro “Brasil – Coração do Mundo…” apresenta:

uma história de ficção literária, tendo por herói o “anjo Ismael”, promovido a responsável pela implantação do “Espiritismo” roustainguista no Brasil, que conversa descontraído com um Jesus alienado que ignora a localização do Brasil e se informa com “Helil”:
“onde fica, nestas terras novas, o recanto planetário do qual se enxerga, no infinito, o símbolo da redenção humana?” (pág. 23)

  • E assim Roustaing surge no livro: por iniciativa do próprio autor espiritual ou a pedido da FEB, com o consentimento do médium e seu guia, tudo na mais santa harmonia. E não se pode provar qualquer interpolação de textos mediúnicos por parte da FEB, por não ter respaldo legal:
    a escritura de cessão de direitos autorais dos livros do médium Chico Xavier é ampla, irrestrita e geral: o Chico assume a responsabilidade de todas as alterações porventura feitas nos textos mediúnicos.

Os co-partícipes

Emmanuel, prefaciando o livro “Brasil – Coração…”, diz que
“os dados que ele (Humberto de Campos) fornece nestas páginas, foram recolhidos nas tradições do mundo espiritual…”  (Tradição: transmissão oral de lendas, fatos, etc.)

A história desse livro está mais para lendas do que para fatos…

Vamos lá: qual, afinal, seria a ligação de Emmanuel com o roustainguismo, além do prefácio do livro de propaganda roustainguista “Brasil – Coração do Mundo…”?

Pelo que já lemos do que escreveu Emmanuel e de opiniões pessoais de Chico Xavier, ficou-nos a impressão de que a simpatia de um e outro por Roustaing se prende apenas à personalidade de Jesus, que, segundo eles, é de tal magnitude que foge à nossa compreensão humana.
Chico e Emmanuel não deram a Jesus a conotação espírita de espírito criado simples e ignorante.

Assim é que Emmanuel, no seu livro “O Consolador”, segunda parte, V – Evolução-Dor, ed. FEB, respondendo às perguntas formuladas capciosamente por dirigentes da FEB, deu respostas que deixaram exultantes os febeanos:

Pergunta nº 243 – Todos os espíritos que passaram pela Terra tiveram as mesmas características evolutivas, no que se refere ao problema da dor?
R.: – Todas as entidades espirituais encarnadas no orbe terrestre são espíritos que se resgatam ou aprendem nas experiências humanas, após as quedas do passado, com exceção de Jesus-Cristo, fundamento de toda a verdade neste mundo, cuja evolução se verificou em linha reta para Deus, e em cujas mãos angélicas repousa o governo espiritual do planeta, desde os seus primórdios.”

A expressão “em linha reta” é própria dos roustainguistas para designar os “espíritos infalíveis”, que atingiram a perfeição sem nunca terem errado e que, portanto, nunca “sofreram” a encarnação humana.

Emmanuel dá respostas roustainguistas às perguntas 205, 248, 249 e 277.

E mais! O que poucos sabem é que Emmanuel prefaciou um livro ESCANCARADAMENTE roustainguista chamado “Vida de Jesus”, escrito pelo roustainguista professo Antônio Lima.
Nesse prefácio, Emmanuel faz rasgados elogios ao autor e sua sapiência e capacidade, e ainda confirma sua opinião de que Jesus não viveu as amarguras e inquietações das existências. Ele diz que as teses inseridas no livro são as mais elevadas possíveis.

Vamos ver que teses são essas, assim tão “elevadas”.

Bem, bastante resumidamente, porque infelizmente não dá pra transcrever o livro inteiro, no cap. “Sabedoria Antiga”, o primeiro do livro, Antônio Lima simplesmente deprecia Krishna, Buda, Zoroastro e praticamente todos os líderes religiosos orientais, para unicamente exaltar a Jesus. Vejamos alguns trechos:

1 – Demonstrando total desconhecimento da cronologia histórica, ele diz:

“Quem não vê nesta salgalhada (Os Vedas) uma torpe imitação da gênesis bíblica, deturpada e envilecida com disparates…”

Para o autor, foram os Vedas que imitaram a Genesis bíblica, sendo que, na verdade, os Vedas são muito mais antigos que a Bíblia!!!

Ele se refere ao Bramanismo da seguinte maneira:
“… o Bramanismo ainda ocupa a atenção de milhares de criaturas, que se dão a ingrata preocupação de lhe revolver as cinzas mortas, e de onde se evola um cheiro acre de cadáver putrefato”.

Diz lá Antônio Lima, que tantos elogios recebeu de Emmanuel:
“Não menos pretensioso é o Nosso Senhor o Buda, como lhe chamam os seus turiferários, que o veneram acima de todas as coisas, não dando confiança aos raptos da oração, nem a outro qualquer autor dos mundos. Para eles, Deus é figura somenos.”

Após comentar sobre princípios do Budismo, comenta:
“E é somente com esse pouco que N.S. o Buda logrou conquistar até hoje setecentos milhões de adeptos…”
“Ser budista, assim mesmo é na verdade bem menor estultícia que ser ateu.”

Diz ainda que Krishna imitou Jesus, porque nasceu de uma Virgem (Deváqui) sem o Espírito Santo e dispara:
“Como se dá com os espíritos mistificadores, que deixam sempre a cauda de fora, o Krishna, que até o nome quiseram aproximá-lo ao do Cristo,depois de muito recomendar tolerância, perdão, humildade e o resto que se faz preciso para imitar Jesus…”

e passa a contar uma passagem onde Krishna tem um entrevero com uma rainha chamada Nysoumba.
E conclui:

“Aí fica a Sabedoria Antiga” os indigestos caroços do dessaborido fruto, que apesar disso parece agradarem alguns. Não tem faltado quem se irrite por considerar incompleta a obra de Jesus, o Cristianismo, entendendo que se deve invocar a Sabedoria Antiga como contingente complementar do seu apostolado.”

Bem, paramos na análise do livro “Vida de Jesus”, do roustainguista Antônio Lima, que recebeu de Emmanuel, através de Chico Xavier, em prefácio, elogiosas considerações, como sendo um livro que contém as mais elevadas teses possíveis, e onde Emmanuel diz que a compreensão acerca da natureza do corpo de Jesus é uma questão de “zona de compreensão de cada criatura”, dando a entender que quem não concorda é quem ainda não está em condições de compreender…(???)

O livro todo, praticamente, é voltado para a defesa de Jesus como o único que conduz a Deus, sendo que os outros reveladores lhe são inferiores e até falsários.

Mas a questão central do livro é sair em a defesa das idéias roustainguistas.

Um dos capítulos se chama “Supremacia de Jesus”, e outro se intitula “Natureza de Jesus”. Neste último capítulo, Antônio Lima corrobora a hipótese bíblica de que “Jesus nascera de uma virgem, que não havia conhecido varão”.

Agora vejam o que autor diz:

“… há quem exija da pureza imácula do seu Espírito (o de Jesus) a torpe imposição de o envolver na matéria, de o misturar à sordidez do coito, tal qual se opera com o criminoso violador das leis divinas e com o irracional enfurnado nas brenhas inóspitas”

O ato sexual para o autor, portanto, é pecaminoso, sujo, sórdido, e não poderia ter servido para ensejar a concepção de Jesus! Analisem e vejam se isso faz algum sentido…

O autor ainda procura de todo modo achar em Kardec e na Codificação, ensinos soltos que representariam a confirmação desses postulados.
Além de arrastar o leitor para que conclua que a tese roustainguista é puro Espiritismo, ou melhor, um “curso superior de Espiritismo”, Antônio Lima confirma o fato de ter sido Bezerra de Menezes um roustainguista professo. Em nota de rodapé, na pág. 229, consta o seguinte:

“A um confrade que o consultou sobre o mérito desta obra (a de Roustaing), assim respondeu o saudoso Bezerra de Menezes pela Gazeta de Notícias de 22 de abril de 1897: “A Allan Kardec sobreviveram outros missionários da verdade eterna que, sem destruir a obra feita, porque esta é firmada na lei e a lei é imutável, darão mais luz para mais largo conhecimento das facetas mais obscuras daquela verdade. “Eis aí que apareceu Roustaing, o mais moderno missionário da lei, que em muitos pontos VAI ALÉM DE ALLAN KARDEC, porque é inspirado como este, mas teve por missão dizer o que este não podia, em razão do atraso da humanidade.”

Lembramos que há aí um erro crasso, que é dizer que Roustaing veio revelar o que Kardec não pôde em razão do atraso da humanidade.
Ora, como? – Kardec e Roustaing foram contemporâneos seus livros vieram à lume na mesma época!

E Bezerra prossegue e confirma o erro: “Roustaing confirma o que ensina Kardec, porém adianta mais que este, pela razão que já foi exposta acima”.
“É, pois, um livro precioso e sagrado o de Roustaing…”

No capítulo “Terra da Promissão”, Antônio Lima deixa bem claro que o autor da tese de ser o Brasil coração do mundo, pátria do Evangelho não é Humberto de Campos, mas sim o “anjo” Ismael.

Isso mais uma vez confirma que Humberto de Campos (se é que é ele mesmo) aprendeu direitinho com as aulas dadas pelo seu “mestre” Pedro Richard nas reuniões de estudos de “Os Quatro Evangelhos” na sede da Federação, ao lançar o livro “Brasil – Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”.

Antônio Lima escreve no capítulo citado:

“Já disseram – e Ismael o confirmou – o Brasil é a Terra prometida, a Pátria dos Evangelhos, o seio de Abraão.”

Realmente, autores não espiritualistas, encantados com as belezas naturais do Brasil, como Zweig, poeticamente elegeram o Brasil o paraíso antes de Ismael declarar ser o Brasil a terra escolhida.

Antônio Lima no capítulo “Terra de Promissão” segue os mesmos passos que Humberto de Campos viria a seguir dois anos depois. Ele inicia ressaltando as maravilhas naturais do solo brasileiro e “pula” imediatamente para a questão de o Brasil ser a terra escolhida para que fosse plantada (ou replantada) a “árvore do Evangelho”.

Um dos indícios que ele se utiliza para sustentar esta tese é que foi justamente aqui que a obra de Roustaing encontrou guarida e aceitação, por parte da FEB e ilustres espíritos, como Bezerra de Menezes e Bittencourt Sampaio, além do estímulo dado pelo “anjo” Ismael, enquanto na França a obra encalhou nas prateleiras.

Antes de partirmos para a análise de vários trechos da obra “Brasil – Coração do Mundo…”, gostaríamos de fazer as seguintes considerações:

 

“O Mito do Brasil – Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”

 

O mito do “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” vez por outra renasce das profundezas do inconsciente coletivo espírita-cristão.

Agora mesmo, com as ainda recentes tragédias do World Trade Center e do Pentágono, não faltaram vozes ufanistas identificando o grande momento do resgate da Terra do Cruzeiro, qual nova Canaã ou Jerusalém redimida, sendo promovida a centro do mundo, em cumprimento à promessa feita por Jesus, naquele passeio a que foi levado, “no último quartel do século XIV”, quando “o Cordeiro de Deus”, procedendo “do coração luminoso das esferas superiores”, conduzido por “anjos e tronos que lhe formavam a corte maravilhosa”, surpreso e entristecido por ver na Terra somente “veredas escuras, cheias de lama da impenitência e do orgulho”, avistou aquela extensão de “matas virgens e misteriosas”, ao sul do continente ainda não descoberto, identificado pelo anjo Helil, que fazia parte de sua Corte, como o território futuro do Brasil.
Fascinado pela magia daquele paraíso terrestre, Jesus ali mesmo abençoou e elegeu aquele “solo dadivoso e fertilíssimo”, como sede de uma futura pátria onde “todos os povos da Terra aprenderão a lei da fraternidade universal”.

A Terra Prometida

Para o Espiritismo “cristão” (leia-se roustainguista), cultivado no Brasil, os trechos acima colocados entre aspas, extraídos da obra mediúnica ditada pelo escritor Humberto de Campos, não são mera expressão ficcionista de um excelente literato brasileiro que, desencarnado, passou a escrever pela pena de Chico Xavier, elegendo o filão espiritualista como sua nova temática preferencial.

Ao contrário, o livro é visto, literalmente, como uma profecia celeste, ambientada em clima de extremo misticismo, onde abundam querubins e serafins percorrendo o espaço em carruagens de luz, símbolos tão do gosto da tradição evangelista que também herdou do judaísmo o mito da Terra Prometida, onde correrão o leite e o mel.

Para o espiritismo cristão e evangélico roustainguista, essa obra é muito mais importante que “O Livro dos Espíritos”. Suspeito, até, que sua venda seja bem superior à da obra fundamental de Kardec. O exemplar que compulso no momento em que alinhavo este comentário, por exemplo, é da 12ª edição, em 1979. Pelos dados técnicos ali constantes, a reedição, somada às anteriores, atingiu 92 mil exemplares. Decorridos mais de 20 anos, quantos milhares mais já terão sido comercializados?

Decididamente, o Jesus apresentado nesta obra nada tem a ver com o Jesus de Kardec, de inteira dimensão humana, “guia e modelo da humanidade”. O ali retratado é um Jesus mítico, nem homem, nem Deus, que mora no céu e que, no século XIV, resolveu visitar as regiões próximas da Terra, da qual, a se julgar por sua surpresa ao ver o que aqui acontecia, dela se mantivera por 1.300 anos sem qualquer notícia.

Logo ele, apontado pelos mesmos cultivadores dessa doutrina, como o “Governador do Planeta!” Na pressa de reassumir a Governadoria de que se havia descuidado por tanto tempo, o “Cordeiro de Deus”, elegeu a futura Terra do Cruzeiro para ser o coração do mundo e a pátria do evangelho, ali mesmo designando o anjo que lhe dava as informações que ele não possuía, para encarnar em Portugal, preparando com o futuro concurso de Jean Baptiste Roustaing, Bezerra de Menezes e outros, o ambiente que faria do Brasil a Terra por ele abençoada e predestinada.

Segundo o Espírito Humberto de Campos, em seu famoso “Brasil – Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, Jesus Cristo, em viagem com sua corte celestial, teria ficado muito triste e resolveu transplantar a árvore do evangelho, da Palestina para o Brasil. Não é um conto de fadas. É crença, alimentada pela costumeira alienação dos místicos, diante da realidade político-econômica e social da nação.

Trata-se da reedição do mito da Terra Prometida e ilusão de ser o povo escolhido, que sustentou a cultura hebraica. Seguindo esse esquema, parece justo pensar que os febeanos acreditem que também a “árvore” do Espiritismo teria sido transferida de Paris para o velho casarão da Avenida Passos, no Rio de Janeiro. Nessa fantasia não faltou nem um anjo, o Anjo Ismael, cujo primeiro decreto foi: “a missão do Espiritismo é evangelizar”, negando a origem e proposta universalista da Doutrina.

Retirado Kardec do centro do Espiritismo, seguiu-se, como se sabe, a inclusão do roustainguismo com sua doutrina da queda do Espírito, da reencarnação punitiva e da liderança papal, com seu cajado. Uma espécie de volta à Igreja. Esse imbróglio todo acabou por ser aceito, nem sempre conscientemente, pelos espíritas aculturados ao catolicismo, sem condições de perceber que o Espiritismo não vinha se constituir numa Igreja, mas trazer uma nova visão do homem e do mundo.

Discutir se o Brasil é ou não é a “Pátria do Evangelho” é polemizar em terreno alheio ao Espiritismo. O assunto pertence ao Catolicismo.

O Brasil é tido como o maior país católico do mundo e sendo o Catolicismo essencialmente evangélico, não há dúvida de que o galardão é dos católicos: a bandeira “Pátria dos Evangelhos” deve tremular nas torres das igrejas católicas, a estender-se nos templos protestantes.
Quando afirmamos que o Brasil é o maior país espírita do mundo, nesse caso estamos levantando uma tese que nos diz respeito e que, de fato, nos incumbe defender.
Os roustainguistas levantaram essa bandeira de “Pátria do Evangelho” porque admitem que a Igreja Católica, no futuro, será verdadeiramente a “Igreja do Cristo”, o que acarreta sérias implicações, porque já se está vaticinando o fim do Espiritismo, tendo-se em mente que este é a extensão e complemento do Cristianismo, o Consolador que Jesus prometera à humanidade.

Na melhor das perspectivas para o Espiritismo, nesse quadro visionário roustainguista, a Igreja católica incorporará à sua filosofia os princípios doutrinários espíritas. Mas tudo isso é mera especulação.

Eis o que se lê sobre a Igreja CATÓLICA nos “Os Quatro Evangelhos’, de Roustaing:

“A mediunidade dos que, entre vós, servem de instrumentos aos Espíritos está apenas em começo. Mas, contrariamente ao que sucedeu na época dos discípulos, os vossos médiuns só entrarão no gozo completo de suas faculdades mediúnicas quando estiver entre os homens o Regenerador, Espírito que desempenhará a missão superior de conduzir a humanidade ao estado de inocência, isto é: ao grau de perfeição a que ela tem de chegar. Até lá, obterão somente fatos isolados, estranhos à ordem comum dos fatos.”

“O chefe da Igreja Católica, nessa época em que este qualificativo terá a sua verdadeira significação, pois que ela estará em via de tornar-se universal, como sendo a Igreja do Cristo, o chefe da Igreja católica, dizemos, será um dos pilares do edifício. Quando o virdes, cheio de humildade, cingido de uma corda e trazendo na mão o cajado do viajante, podereis dizer:

‘Começam a despontar os rebentos da figueira; vem próximo o estio.” (3º Vol., pág. 65) Já sabemos que o roustainguismo não encontrou receptividade na pátria de Kardec, a França, porém encontrou guarida na Pátria do Cruzeiro, hoje conhecida no MEB como “Pátria do Evangelho”.

Aqui no Brasil, com a cruz de Cristo estampada nas caravelas, vieram os portugueses, ostentando no peito, orgulhosamente, a imagem de Cristo.
Ao lado dos colonos, chegaram os sacerdotes com o crucifixo na mão e aqui foram logo sendo construídas as primeiras igrejas, que se multiplicaram em ricas catedrais.

Em toda parte, nos engenhos de açúcar e nas fazendas de criação havia uma sacristia e um padre á disposição da família patriarcal dos senhores de terra e de escravos. Estes, índios ou negros, amedrontados pelas ameaças dos feitores desumanos, foram convertidos à força ao catolicismo romano, sem, contudo, abandonarem as crenças nativas e os rituais fetichistas.
Enfim, toda a população do Brasil era católica, apostólica, romana, por força da tradição e da legislação em vigor.

Desta forma, quando, em meados do século passado, aqui chegaram os Evangelhos de Roustaing, encontraram um terreno propício para se desenvolver. Quem lançou a semente, em 1880, foi o advogado Antonio Luiz Sayão, que, “tendo sido católico fervoroso, espírito fascinado pelos mistérios teológicos, apaixonou-se pelas histórias alucinatórias de “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing”, como nos informa Jorge Rizzini, em “O Corpo Fluídico” de Wilson Garcia (p.23)
Luciano Costa, um grande espírita que escreveu o livro “Kardec e não Roustaing” disse muito bem que a obra de Roustaing “é uma obra jesuítica de combate à verdade.” (p.96/97) e “é uma revelação jesuítica, incursa no crime de fraudar o Espiritismo.”(p. 196)

O padre Nóbrega, como sabemos por informação de Emmanuel, foi aquele que, no séc. I da Era Cristã, ou seja, no tempo do apostolado de (São) Paulo e do seu discípulo Erasto, foi o rico, poderoso e influente patrício romano, senador do Império, defensor do paganismo e aliado dos fariseus que dominavam a Judéia, responsáveis pela crucificação de Jesus. Seu nome era Públio Lentulus Cornelius.

No séc. XVI, reencarnou e vestiu a sotaina de um jesuíta, alistando-se, portanto, no grande e poderoso exército criado por Inácio de Loyola, para combater a Reforma Luterana. Foi, pois, um bravo soldado da Contra-Reforma como padre Manuel da Nóbrega.
Nascido em 1517, bem moço ainda Nóbrega se filiou à Companhia de Jesus, fundada em 1534. Aí recebeu uma educação requintada dentro do melhor espírito do Renascentismo. Por isso, ao ordenar-se, ficou logo conhecido pelo seu imenso saber e sua cultura humanística.
Era tratado pelos seus companheiros como o “ermano Manuel”, e, ele próprio, nos documentos oficiais da Igreja, se identificava como E. Manuel, abreviando seu nome.

Em 1549, quando D. João III cogitou de mandar para o Brasil o primeiro Governador Geral, pensou logo em alguém que viesse chefiando um grupo de sacerdotes jesuítas. Como Nóbrega já era um nome muito conhecido e conceituado na corte do “piedoso” monarca (assim chamado por ter introduzido em Portugal a Santa Inquisição), a escolha real recaiu sobre sua pessoa.

Nóbrega veio para o Brasil, ou Terra de Santa Cruz, como superior dos jesuítas. Mais tarde, quando o Brasil foi elevado à categoria de Província da Companhia de Jesus, ele passou a exercer o elevado cargo de provincial. Mas foi ainda como superior dos jesuítas, que acompanhou o Governador Geral.

Essa predileção que D. João III demonstrou para com Nóbrega decorria também, em grande parte, do fato de ele gozar então de um ótimo conceito entre os fidalgos da corte, que o consideravam “um padre ilustre com vocação de estadista, na simplicidade de pastor de almas”, como informa Pedro Calmon (História do Brasil, vol. I, p. 219)

Segundo o livro “Brasil – Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, a encarnação de Nóbrega e seu apostolado no Brasil tinham sido programados no mundo invisível. A decisão se deu numa “grande e augusta assembléia”: os jesuítas viriam com a missão de encetar a obra de edificação da “Pátria do Cordeiro de Deus”. (p.45)


Nóbrega chegou ao Brasil em 1549, e, uma das primeiras providências que tomou foi escrever ao rei de Potugal, que mandasse logo para cá muitos escravos negros retirados da África, porque os índios viviam se rebelando constantemente contra a escravidão e os colonos precisavam muito de mão-de-obra para tocar para frente seus engenhos e fazendas de criação.

E isso foi logo conseguido pelo ilustre jesuíta. De fato, vieram muitos negros escravizados.
Foi também devido à influência de Nóbrega junto ao rei e ao Papa que se fiou o Bispado da Bahia e a Diocese de Salvador, que recaiu na pessoa de D. Pero Fernandes sardinha, amigo íntimo de Nóbrega.
Outra prova do prestígio de Nóbrega está na criação das ‘missões’, onde os índios pasrama a viverem segregados na sociedade colonial, debaixo de um regime disciplinar semelhante ao das casernas, transformados em verdadeiros autômatos dos jesuítas, como informa o historiador Caio Prado Jr., em “Formação do Brasil Contemporâneo, p. 86/87).

A razão disso é muito simples: os jesuítas pretendiam criar aqui “um imenso império temporal da Igreja católica sob sua direção” (idem) Mas não foram somente estes os serviços prestados pelo Padre Nóbrega e os jesuítas. Eles também colaboraram muito, “com intensidade, na guerra contra o invasor, os franceses hereges calvinistas, pois a catolicidade corria perigo”.
Nessa ocasião, “Nóbrega, normalmente tão pacífico e sereno, mostrou-se então um chefe hábil e ativo”, um grande soldado da Contra- Reforma. Sua colaboração foi tão eficiente que “sem o apoio dos missionários da Companhia de Jesus”, a expedição militar de Estácio de Sá teria esbarrado nas dificuldades de uma resistência esparsa e bravia dos índios tamoios”, como informa Pedro Calmon na obra já citada.
Finalmente, depois de tão relevantes serviços prestados à sua Santidade, o Papa, ao Geral da Cia. de Jesus (o Papa Negro), à Contra-Reforma, acabou desencarnando o padre jesuíta Manuel da Nóbrega, no dia 18/10/1570.
Cinquenta anos depois, reencarnou novamente como padre Damiano, Vigário de Ávila, na Espanha.


Pois bem, no séc. XIX eclodiu, como se sabe, o movimento provocado pelo fenômeno das mesas girantes e falantes, que culminaram com o aparecimento do Espiritismo, ou Doutrina Espírita, devido à obra missionária de Allan Kardec, em cujos livros básicos aparece constantemente o nome de Erasto, discípulo de Paulo, com suas mensagens e epístolas de grande conteúdo doutrinário.


Ao contrário, o nome do padre Manuel da Nóbrega não aparece nenhuma vez e nunca a ele se referiu o próprio Codificador. E nada prova que aquele “Emmanuel” que ditou em Paris, em 1861, uma comunicação sob o título “O Egoísmo”, foi do padre Nóbrega ou do vigário de Ávila.


Na verdade, ao que tudo indica, o espírito do padre Nóbrega só voltou a aparecer no Brasil, no séc. XX, a partir dos anos 30.
Foi, todavia, numa sessão pública, realizada no dia 8/07/1927 que esse espírito deu seus primeiros sinais, através da mediunidade de dona Carmem Perácio, que confessou:

“Ouvi uma voz suave, doce, tão cativante, que logo reconheci não pertencer a qualquer criatura encarnada. A voz declara ser de Emmanuel, amigo espiritual de Chico.”
“Depois surgiu à minha frente uma bela entidade, com vestes sacerdotais…”

 

Achamos necessário fazer essa introdução e ligeiro apanhado histórico para que todos possam ter uma melhor compreensão do que se segue. Não é possível chegar a uma conclusão de algo com apenas algumas poucas informações, aliás muito mal fornecidas pelo MEB. Faz-se necessário um cruzamento de informações para que se tenha condições de avaliar.

Bem, estamos fazendo um apanhado histórico sobre o espírito que hoje conhecemos como Emmanuel, que Chico Xavier dizia ser seu guia espiritual.
Para quê isso?

Bem, demonstrámos anteriormente que Emmanuel andou referendando dois livros com CLARO CONTEÚDO ROUSTAINGUISTA:
“Vida de Jesus”, de Antônio Lima (roustainguista confesso), e “Brasil – Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, de Humberto de Campos (ateu enquanto encarnado e aprendiz das reuniões de estudos roustainguistas do Grupo Ismael na FEB depois de desencarnado).

Como isso se explica? É a essa resposta que estamos pretendendo chegar. Segundo informações, o amigo espiritual do médium Chico Xavier já o vinha acompanhando,desde quando ele era pequeno e deu os primeiros passos na mediunidade.

Mas foi somente em 1931 quando Chico completara a maioridade, que esse ser invisível lhe apareceu pela primeira vez, como ele próprio contou:
“Primeiramente vi uma cruz muito bela, iluminada (…) Em seguida, surgiu o Mentor Espiritual, envergando a túnica dos sacerdotes.”

Antes disso, porém, no dia 18/1/1929, numa sessão em Pedro Leopoldo, esse “Amigo Invisível” do Chico já tinha dado a entender qual era a missão que lhe cabia nesta encarnação:
“…nesse dia me foi mostrado uma quadro fluídico: mediunicamente vi que, do teto, estava chovendo livros sobre a cabeça do Chico e de todos os membros do grupo que ali estavam reunidos”, declarou Carmem Pena Perácio.

Portanto, deveria desabar sobre o mundo espírita, nacional e internacional, uma “tempestade’ em forma de livros psicografados.
Entretanto, só bem mais tarde é que Chico veio a tomar conhecimento da verdadeira identidade do seu Amigo Espiritual, como ele próprio declarou:

“Só mais tarde, no dia 12/1/1949, foi que veio a revelação, ainda em Pedro Leopoldo: Emmanuel havia sido mesmo o padre jesuíta Manuel da Nóbrega, o Apóstolo do Brasil”.(“Folha Espírita em revista”, p. 95)

Isto foi confirmado pelo próprio Chico durante entrevista no programa “Pinga-Fogo”, da TV Tupi de SP, canal 4, às 22h do dia 27/7/1971.
Confirmara-se que havia sido antigo militante da Companhia de Jesus, criada por Inácio de Loyola para defender a Contra-Reforma.

Vejamos o que ensinava a Companhia de Jesus e os jesuítas:

Os jesuítas foram fundados no seguimento da reforma Católica (também chamada Contra-Reforma), um movimento reacionário à Reforma Protestante, cujas doutrinas se tornavam cada vez mais conhecidas através da Europa, em parte graças à recente invenção da imprensa.

Os Jesuítas pregaram a obediência total às escrituras e à doutrina da igreja, tendo Inácio de Loyola declarado:

“Eu acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da igreja assim o tiver determinado”.

Uma das principais ferramentas dos Jesuítas era o retiro espiritual de Inácio. Neste, várias pessoas reúnem-se sob a orientação de um padre durante uma semana ou mais, permanecendo em silêncio enquanto atendendo a palestras e submetendo-se a exercícios para se tornarem pessoas melhores.
Também pregavam que as decorações e a ostentação em geral nas cerimônias do catolicismo (desprezadas pelos Luteranos) deviam ser acentuadas e abundantemente financiadas.”

Mais sobre os jesuítas

“Os jesuítas conseguiram obter grande influência na sociedade nos períodos iniciais da idade moderna (séculos XVI e XVII) porque os padres jesuítas foram por muitas vezes os educadores e confessores dos reis dessa altura. Os jesuítas foram uma força líder da Contra- Reforma, em parte devido à sua estrutura relativamente livre (sem os requerimentos da vida entre a comunidade nem do ofício sagrado), o que lhes permitiu uma certa flexibilidade operacional.
Em cidades alemãs, por exemplo, os jesuítas tiveram um papel batalhador, contribuindo para a repressão de quaisquer revoltas inspiradas pela doutrina de Martinho Lutero.”

 

 

A FEB se aproxima de Chico Xavier


Quem achou muito interessante o reaparecimento, por assim dizer, do antigo jesuíta em plagas nacionais foram os dirigentes da FEB (Fed. Espírita Brasileira), empolgados com as mensagens recebidas pelo médium mineiro. Logo tomaram para si a responsabilidade de editar os livros por ele recebidos.
Em troca foram-lhe cedidos pelo médium os seus direitos autorais, como o próprio Chico declarou:

“Todos os livros recebidos, de 1931 até hoje (1977), foram entregues à Federação espírita Brasileira”. (“Folha Espírita em revista”, p. 26)


 

 

Fontes bibliográficas:

  • “Conscientização Espírita”, de Gélio Lacerda (Editora Opinião E.);
  • “Erasto, Discípulo de São Paulo”, de Erasto de Carvalho Prestes (Editora Mandarim);
  • “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” – F.C.Xavier (Editora FEB

AFAF

Nota autobiográfica de Artur Felipe de Azevedo Ferreira

(Vista no seu blogue Ramatis, Sábio ou Pseudo-Sábio?)

Iniciei meus estudos da Doutrina Espírita aos 13 anos (1984), no Grupo Espírita Pestalozzi, em Nova Friburgo-RJ.
Aos 22 (1993), atuei como orientador de Mocidade da União da Mocidade Espírita de Niterói (UMEN), um centro tradicional da cidade. Ao mesmo tempo, colaborei como evangelizador no Grupo de Apoio ao Menor (GAM), hoje Casa de Batuíra e unidade do Lar Fabiano de Cristo, que prossegue no trabalho de assistência junto aos moradores de populosa favela em São Gonçalo – RJ.
Em 1999, fui eleito presidente do centenário Centro Espírita Friburguense, na cidade de Nova Friburgo – RJ, sendo que por cerca de quatro anos apresentei, juntamente com o confrade José Manoel Ferreira Barboza, dois programas espíritas em rádios locais (Friburgo-AM e Conquista-FM) e um programa de TV (TV Zoom, canal 10).
De volta à Niterói, fui orientador de estudos da Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro (FEERJ).
Hoje, encontro-me ligado à ADE-RJ, Associação dos Divulgadores do Espiritismo do Rio de Janeiro.
Já promovi estudos em forma de palestra em cidades dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e Maranhão. Fui prefaciador de três livros: “Espiritismo e Política”, de Paulo R. Santos, “O Primado de Kardec”, de Sérgio F. Aleixo, e “Breve História do Espiritismo”, de Fabiano Vidal.

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5 thoughts on “O Surgimento do “Anjo” Ismael

  1. Caro Artur, achei muito interessantes suas colocações, entretanto, sem entrar no mérito Roustainguismo ou Kardecismo, creio que você incorre na mesma falta de caridade BIP (benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas) que se encontra definida em “O livro dos espíritos”. Nessa obra, os Espíritos também explicam que a encarnação é destinada, sim, à expiação ou missão, dependendo do grau evolutivo do Espírito (q. 132 do LE). Por outro lado, colaboro com a FEB há 36 anos e jamais encontrei essa obrigatoriedade de se estudar Roustaing e muito menos de tê-lo como a base religiosa do Espiritismo. A base, como sempre foi enfatizada, é Kardec inclusive nos estudos de ESDE e EADE, dos quais fui monitor por décadas. Conforme diz Paulo, “Examinai tudo, retende o bem”. Há, sim, um grupo de estudos, na FEB, destinado àqueles que gostam das obras de Roustaing, entretanto, jamais isso foi imposto a ninguém, nem mesmo nos diversos cursos aqui existentes (FEB/Brasília), o que também, em minhas idas à sede seccional do Rio de Janeiro observei. Não existe, pois, a ideia de sobreposição de Roustaing a Kardec na FEB, meu amigo. Pelo menos desde que acompanho esta Casa. Quanto à história de Ismael, de Emmanuel e outras, também há evidente exagero de sua parte. Podemos divergir sem atacar, mesmo que não aceitemos o aspecto de continuação do Cristianismo pelo Espiritismo. O que importa é, sobretudo, nossa capacidade de entender a mensagem espírita como uma Nova Era para a Humanidade, pela qual devemos nos unir e esforçar, deixando as divergências de lado. Fraternalmente.

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    1. Envolvido noutras tarefas não pude, em devido tempo, publicar este comentário, pelo que peço as minhas desculpas a Jorge Leite. Tendo reparado hoje no seu segundo comentário, são publicados ambos hoje, simultaneamente.
      As minhas saudações a Jorge Leite e a todos os outros visitantes. Faço notar que, em princípio, não será feita censura aos comentários que forem feitos neste blogue, ainda que de opinião contrária ao seus conteúdos.

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  2. Examinai tudo, retende o bem. Como disse antes, e minha resposta não aparece no blog, a FEB jamais impôs Roustaing acima de Kardec. Em mais de trinta anos como instrutor de estudos das obras espíritas na Instituição, jamais vi qualquer destaque a Roustaing. Se é certo que existe um grupo que estuda o Evangelho sob a ótica roustainguista, isso ocorre de modo quase anônimo. Quando ao achincalhe a Emmanuel, sua obra é um primor de preceitos morais elevados e um dos seus livros, Pão Nosso, recebeu nos EUA o prêmio de medalha de bronze como um dos três livros de mensagens cristãs mais belos. Não nos esqueçamos de que Manoel de Nóbrega viveu em outra época, sob outras necessidades e sujeito a uma Humanidade ateia e agressiva, como parece estar sendo novamente em nossos dias. Quem pode garantir que o sacerdote se referia ao trabalho escravo? Até mesmo as palavras do Cristo têm sido deturpadas, quanto mais as do resto de seus enviados.

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    1. Não é meu intuito censurar os comentários que forem feitos pelos leitores, mesmo que de opinião contrária. Ficam as minhas saudações para Jorge Leite e para todos os outros leitores, a quem deixo o cuidado, se assim quiserem, de darem o seu parecer.

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